

O mapa do crescimento brasileiro em 2026 desenha um país em velocidades distintas. Enquanto o Produto Interno Bruto nacional se move em ritmo contido, com projeções em torno de 1,7% a 2% para o conjunto da economia, o Norte e o Nordeste despontam, mais uma vez, como fronteiras dinâmicas, sustentando taxas de expansão acima da média do país e redesenhando, silenciosamente, a geografia do desenvolvimento. Relatórios de organismos internacionais e de consultorias privadas convergem em apontar 2026 como um ano de desaceleração, em que o peso de juros elevados, menor ímpeto do agronegócio e um ciclo industrial menos vibrante comprimem o crescimento agregado, mas não impedem que bolsões regionais de vigor se afirmem com nitidez.
Nesse contexto geral de freio suave, as projeções setoriais e regionais revelam uma realidade mais matizada. Estudos recentes, como a Resenha Regional de Assessoramento Econômico do Banco do Brasil e análises macro regionais de fundações e bancos públicos, indicam que o Nordeste deverá registrar, em 2026, um crescimento de aproximadamente 2,2% em seu PIB, superando a média do país e consolidando uma trajetória de expansão que, nos últimos anos, já vinha se mostrando ligeiramente acima da marca nacional. Estados como Ceará e Paraíba despontam como locomotivas regionais: no caso paraibano, a primeira projeção do Banco do Brasil aponta alta de 3,5% no ano, segunda maior taxa do Nordeste e sexta do Brasil, numa lista liderada por unidades federativas nortistas como Roraima e Amapá, além do Rio Grande do Sul.
O Norte do país, por sua vez, segue trajetória semelhante. Análises das contas regionais recentes mostram que, nos últimos ciclos, a região já vinha crescendo acima da média nacional, impulsionada por estados como Tocantins, Roraima, Acre, Amazonas e Amapá, cujos PIBs estaduais chegaram a registrar avanços anuais superiores a 5%, com picos em torno de 8% ou 9% em alguns casos. Projeções de longo prazo elaboradas por consultorias como a Tendências indicam que, entre 2026 e 2034, a economia nortista deve manter um crescimento médio da ordem de 3,1% ao ano, superior à trajetória prevista para o conjunto do país, estimada em torno de 2,5% no mesmo período.
A combinação de Norte e Nordeste produz um dado eloquente: enquanto o Brasil, como um todo, ajusta o passo para um crescimento moderado, essas duas regiões consolidam‑se como motores importantes da expansão, tanto no curto quanto no médio prazo. No Nordeste, estudos apontam para um avanço médio anual de 3,4% entre 2026 e 2034, ante 2,5% da economia nacional, apoiado em um volume previsto de investimentos públicos e privados que beira R$ 750 bilhões em setores como petróleo e gás, energia eólica, aeroportos, saneamento e infraestrutura logística. No Norte, projeções semelhantes identificam um cenário em que a expansão sustentada do agronegócio, da mineração, da energia e de serviços associados à urbanização acelerada tende a manter a atividade em patamar superior à média brasileira.
Por detrás dos números, há uma recomposição gradual de fatores estruturais. No Nordeste, especialistas destacam a força do mercado interno regional, alimentado por um mercado de trabalho relativamente aquecido, com geração de empregos formais e crescimento do rendimento médio em ritmo robusto nos últimos anos, mesmo sob política monetária restritiva. A região tem se beneficiado de um ciclo de investimentos em energias renováveis, especialmente eólica e solar, que reconfigura áreas antes vistas apenas como espaços de vulnerabilidade climática em plataformas energéticas estratégicas para o país. O avanço em setores como telecomunicações, comércio eletrônico, serviços financeiros digitais e turismo também contribui para diversificar a matriz econômica além da tradicional combinação entre agricultura e indústria de transformação leve.
No Norte, o dinamismo é ancorado em vetores distintos, mas igualmente significativos. A ampliação de projetos de infraestrutura, a integração logística com o restante do país e com mercados externos, o fortalecimento de cadeias de valor ligadas a commodities minerais e agropecuárias e a expansão do setor de serviços urbanos nas capitais e cidades médias têm sustentado taxas de crescimento expressivas. Em estados como Roraima, Amapá e Tocantins, o cruzamento entre investimentos em energia, agronegócio e obras de conexão rodoviária e hidroviária cria um ambiente propício para a aceleração da atividade, ainda que, em muitos casos, sobre uma base econômica relativamente menor, o que magnifica as variações percentuais do PIB.
Tudo isso ocorre, porém, em um cenário nacional que inspira prudência. Relatórios de organismos como a ONU, da OCDE e análises de institutos econômicos brasileiros convergem em apontar 2026 como um ano de desaceleração, em que o efeito defasado do aperto monetário – com juros ainda em patamares elevados – continua a pesar sobre o investimento, enquanto o espaço para políticas fiscais expansionistas segue limitado por restrições de endividamento e compromissos com âncoras fiscais. O Banco Central trabalha com projeções de alta do PIB em torno de 1,6% para o ano, e o consenso de mercado captado pelo Relatório Focus se situa perto de 1,8%, patamar inferior ao observado em 2024 e 2025.
Nesse contexto de crescimento contido, o fato de Norte e Nordeste liderarem a expansão relativa não implica ausência de desafios. A literatura especializada tem insistido que taxas superiores à média, partindo de bases ainda marcadas por desigualdades, não se traduzem automaticamente em convergência plena de renda e bem‑estar. Persistem gargalos em infraestrutura, educação, saneamento e inovação tecnológica que, se não forem enfrentados, podem limitar o potencial de transformação qualitativa desse crescimento em ganhos duradouros de produtividade. Ao mesmo tempo, a forte dependência de setores sensíveis a ciclos de preços internacionais, como commodities agrícolas e minerais, e de investimentos intensivos em capital fixo torna essas economias regionais vulneráveis a choques externos, variações de câmbio e mudanças no apetite de investidores.
Ainda assim, o quadro que se delineia para 2026 e além é o de um país em que a narrativa tradicional de um “Sul‑Sudeste locomotiva” precisa ser matizada. Enquanto a economia brasileira, como um todo, atravessa um período de moderação e de ajuste, Norte e Nordeste aparecem, com crescente frequência, como laboratórios de uma nova geografia do crescimento, em que investimentos estratégicos, fortalecimento do mercado interno regional e diversificação setorial produzem ritmos próprios. A questão que se coloca, para a política econômica e para o planejamento de longo prazo, é se o país saberá capitalizar esses impulsos regionais, articulando‑os a uma estratégia nacional de desenvolvimento, ou se assistiremos, uma vez mais, a um ciclo em que dinamismos locais se esgotam antes de se converter em mudança estrutural.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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